O OTIMISMO… E CERTO PAÍS DA ÁFRICA
Tonho Guerreiro
Tenho um amigo nascido em certo país da África. Às vezes me pergunto: será que ele tem condições objetivas, para ser um otimista?
Penso que sim, desde que existam motivos concretos para tanto. Com as informações que ele me passou sobre o seu país, analisei os seus motivos para ser um otimista. É um fato, que o país africano no qual o meu amigo nasceu, tem um território imenso, muitas riquezas naturais, uma natureza maravilhosa e um povo fantástico. Mas…
O tal país africano foi colonizado por uma antiga potência européia, uma das donas do mundo, na sua época. Durante o período colonial, esta potência saqueou vorazmente todas as riquezas do país. Destruiu as florestas. Escravizou e exterminou a população nativa. Os negros, por serem negros, não eram considerados humanos e sim animais de carga e trabalho. Escravizados, eram a única mão de obra de toda a produção agrícola, desse país da África.
A colonização não deixou absolutamente nenhum traço positivo para o futuro desse país africano e sim uma cultura de corrupção, empreguismo e privilégios, enraizada na elite dominante. E o aumento populacional multiplicou o número de pobres, analfabetos e sem acesso à educação. Só a elite teve acesso aos estudos. E mesmo assim, estudos mal direcionados: a mediocridade colonial, fez com que, nos últimos trezentos anos, as faculdades desse país formassem milhões de bacharéis, com emprego certo na máquina burocrática pública, na política e nos tribunais. As graduações em ciências exatas foram relegadas a um distante segundo plano. Nestes últimos trezentos anos, esse país da África, nunca valorizou a tecnologia. A Física, a Matemática, a Química foram ciências esquecidas nas universidades.
Como resultado, esse país sempre se ressentiu da falta de grandes cientistas e pesquisadores. De engenheiros, físicos e matemáticos. O país é a Terra do Nunca. Nunca teve grandes inventores, nunca se soube de qualquer descoberta relevante ou fundamental, criada por seus cientistas e também nunca se soube de nenhuma patente revolucionária registrada no país. Nunca ganhou e provavelmente nunca ganhará um Prêmio Nobel. Nunca houve a criação de qualquer obra, teoria ou corrente de pensamento científico, decisiva para a trajetória do homem, no Planeta Terra.
Até hoje, sua economia é baseada na exportação de matérias primas. Vende para os gringos, minério de ferro a preço de banana. E os gringos transformam o minério em produtos de tecnologia avançada, que vendem de volta, ao país, por preços cinqüenta vezes maiores. O desprezo pela ciência e tecnologia levou à ausência de desenvolvimento, de inovação e de produtividade. A grande herança cultural, de costumes e de mentalidade, que a colonização deixou, foi o clima de salve-se quem puder, que se tem hoje nesse país africano.
Não se sabe hoje, nas altas esferas desse país, o que é patriotismo, decência, seriedade, competência e capacidade gerencial. Nos negócios, nas empresas, nos três poderes, nos governos que se sucedem: de direita, de centro, de esquerda. A regra é uma só: vamos aproveitar. Para uma minoria privilegiadíssima, o otimismo é um fato concreto. A antiga elite dominante, dos tempos coloniais, transformou-se hoje, em várias “elites”. Todas muito bem de vida. Nas capitais dos estados, nesse país da África, têm-se imóveis com preços por metro quadrado igual aos preços de Nova York, Londres, Paris, Cingapura, Dubai. Todos vendidos. Praias maravilhosas, com resorts fantásticos e diárias para milionários árabes. Todos lotados. Lojas luxuosas, com preços estratosféricos, sempre cheias de ávidos consumidores. Nas alamedas e nas avenidas ajardinadas dos bairros nobres, deslizam carros que são verdadeiros palácios móveis. Alguns, com preços de apartamentos de luxo. E todos, com longas filas de espera, nas concessionárias. As viagens internacionais batem recordes. Os nativos ricos desse país africano adoram viajar. E sempre para destinos caríssimos e muito chiques. E haja otimismo!
O que incomoda e muito, as “elites”, nesse país africano, é a existência… do povo. Para estas “elites”, não fosse o povo, esse país seria uma maravilha. O povo é feio, analfabeto e sem estilo. No povo, existem até marginais! Vêm do povo, os assaltantes, os seqüestradores, os ladrões de banco. O povo nunca terá uma boa educação. As “elites” acham que, como o nível das escolas públicas implantadas pelos governos, é uma piada de mau gosto, o povo se aproveita disso para se deixar ficar na ignorância eterna. E eterna, será a sua condição de só trabalhar em subempregos. Acham que no povo, sempre haverá muita gente que se deixará matar pelo álcool, pela maconha, pelo crack. E sempre estarão morando em favelas imundas, morrendo aos milhares, nas enchentes, inundações e desabamentos. E os que escapam, sempre voltam a morar nestes mesmos lugares horríveis. Assim, acham que o povo não aprende. E o povo é a maioria esmagadora, da população desse país africano. E esta maioria, cresce em proporções geométricas. Quanto mais sofrem com a miséria, com o crime, com a droga, com as doenças, com o descaso e a roubalheira desenfreada do “sistema”, mais procriam, mais colocam filhos sem futuro, nesse país sem futuro. Se o povo continuar crescendo desse jeito, chegará o dia em que todas as suas “elites” reunidas, irão caber numa Kombi. Coisas de um país que teve a má sorte de se situar na África.
E o otimismo?
Sejamos otimistas, então. E neste caso sou obrigado a fazer aqui, duas observações. Na primeira, faço uma defesa das “elites”: apesar de meterem o pau no povo, elas, na verdade, lhe são muitíssimo gratas. Reconhecem, para alegria geral que afinal, é o povo, esse povo tão mal falado, quem elege os políticos escolhidos pelas próprias “elites”, para representar e lutar pelos interesses… delas. E só delas.
Assim, de maneira “desinteressada” e otimista, viva o povo!
A segunda observação é a respeito deste texto. Iniciei-o com a frase: “Tenho um amigo nascido em certo país da África.”.
Permiti-me, usando uma espécie de “licença ficcional” (se é que isto existe), manter esta localização geográfica: África, até aqui.
Mas… e se for preciso mesmo, ser um otimista?
Então, esse país no qual o meu amigo nasceu não seria na África.